Pela pena do senhor seu filho, Jaime dos Santos Pereira, meu bom amigo, foi refutado ao Jornal A BOLA uma lamentável brincadeira de mau gosto num artigo por aquele órgão de comunicação publicado numa referência ao centenário da República, que vale a pena ler para que se sinta o que as pessoas de valor, íntegras e com princípios são hoje são consideradas lastimosamente e sem qualquer contemplação ou compreensão. Onde está o respeito e a devida reverência que o seu nome deve ser evocado como pessoa de bem? São isto jornalistas?!...
Eis a resenha:
No dia 8 de Outubro de 1944 disputou-se um jogo de futebol a contar para o Campeonato Regional de Lisboa entre o Benfica e o Belenenses, em que o desfecho foi usado para, passados 66 anos, pôr em causa a honorabilidade de Filipe Gameiro Pereira falecido há 42 anos.
Como se costuma dizer, “quem não se sente não é filho de boa gente”. Reagi perante tal facto, enviando hoje ao jornal “A Bola” um pedido de rectificação para esclarecimento dos seus leitores.
É esse texto que passo a apresentar:
Quando em Abril de 2008, a propósito do 40º aniversário do falecimento do meu pai, resolvi tomar a iniciativa de registar para a posteridade a sua carreira de árbitro de futebol, dirigente e jornalista(*), nunca pensei que, dois anos volvidos, me deparasse com uma situação, no mínimo de injustiça, como aquela descrita num artigo do suplemento “Jogos do Centenário”, publicado no dia 1 de Setembro de 2010 no jornal “A Bola”.
Na altura resolvi fornecer à redacção desse jornal, informação que consta do blogue que construí, sugerindo que fosse publicado um registo sobre a efeméride.
Constatei que a memória é curta pois entenderam os senhores jornalistas não ter a dita efeméride qualquer relevância, visto que nada publicaram.
Curiosamente a Federação Portuguesa de Futebol teve o mesmo comportamento, sendo a APAF a única excepção, publicando notícia no seu site.Voltando ao artigo de 1 de Setembro de 2010, na página 06 daquele suplemento, com o título “Crucificados por causa de árbitro daltónico” são feitas insinuações torpes no que respeita à honestidade e isenção do árbitro Gameiro Pereira, não sendo reveladas as fontes.
Por outro lado, numa leitura mais atenta, afigurasse-me que, de uma maneira leviana, o articulista, cujo nome desconheço, enquadra a actuação do árbitro no âmbito da perseguição do regime político salazarista a determinado clube de futebol, neste caso ao Sport Lisboa a e Benfica.
Sobre este último aspecto quero desde já repudiar tal tentativa de conotação política de Filipe Gameiro Pereira com o regime salazarista que, eu como seu filho, posso testemunhar.
Ao longo da vida o meu pai sempre se bateu pela verdade e pela justiça, incutindo-me esses valores desde muito novo. Numa leitura rápida do que disse atrás se pode depreender que esses valores eram antagónicos ao pensamento e prática da ditadura deposta no 25 de Abril.
Recordo com saudade uma frase que costumava dizer: “Quando isto der a volta, não vão chegar os candeeiros da avenida para os pendurar…”
Infelizmente não teve vida longa para constatar como estava enganado!
Depois de ter efectuado uma pesquisa (dentro daquilo que me foi possível) recorrendo aos vários documentos escritos na altura sobre o assunto, cheguei à conclusão que o referido trabalho jornalístico só pode ter sido feito com falta de rigor e ignorância.
Sobre o jogo Benfica-Belenenses
Ao contrário do que consta no referido artigo (de Setembro de 2010), em que se refere que a derrota teria como consequência a perda do título pelo Benfica, o jogo fazia parte da 4.ª jornada do Campeonato Regional de Lisboa, disputado no dia 8 de Outubro de 1944 no Campo Grande.
Este campeonato teve 10 jornadas e foi conquistado pelo Sporting na última jornada, disputada em 20 de Novembro de 1944 em que que o Benfica perdeu 1-2 no seu campo com o campeão, ficando a 4 pontos do mesmo.
Constituição das equipas: Benfica – Martins; César e António Carvalho; João Silva, Moreira e F. Ferreira; Manuel da Costa, Arsénio, Espírito Santo, Teixeira e Rogério.Belenenses – Acácio; Vasco e Feliciano; Varela, Gomes e Serafim; Mário Coelho, Elói, Armando, Quaresma e Rafael. Árbitro – Gameiro Pereira.
Segundo registos jornalísticos da altura, guardados pelo meu pai, entre eles um escrito pelo senhor Manuel Mota na rubrica com o título “Os Sports”, em jornal que não me foi possível identificar, consta a seguinte apreciação:
“O trabalho do árbitro – O Sr. Filipe Gameiro Pereira teve intervenções pouco felizes, não raro beneficiando com elas o infractor. Em jogadas irregulares na grande área, não assinalou logo no início do desafio uma rasteira a Armando (do Belenenses) e duas faltas de Feliciano (do Belenenses) na segunda parte, perto do fiscal do jogo.
Quando da invalidação do ponto de Rogério (do Benfica), deve salientar-se que um dos fiscais de linha também assinalou a “deslocação”. Nota: a identificação dos jogadores foi feita por mim para tornar claro o sentido do comentário para aqueles que não os conheçam.
Sobre este artigo do Sr. Manuel Mota não posso ainda deixar de referir o seu título: “A defesa belenenses suplantou o ataque benfiquista” cujo conteúdo reforça aquilo que parece ter sido a verdade do jogo.
Como em muitos casos de ontem, de hoje e que certamente também se repetirão amanhã, o árbitro é “crucificado” quando as coisas correm mal para um dos lados da contenda, não querendo com isto dizer que não possam acontecer erros de arbitragem num jogo de futebol. Aliás, estou convencido que isso é tão normal como um guarda-redes dar um “frango” ou um jogador de campo falhar um golo que parecia tão fácil de meter…
Finalmente e ainda sobre o artigo de “A Bola” uma pergunta: Quais as fontes usadas para se afirmar, conforme o artigo, que a DGD terá proposto uma pena ao árbitro apenas por ter tido o desplante de confessar no boletim de jogo que fora vítima de «certa confusão nas cores das camisolas»?
Para terminar, resta-me lamentar que um jornal desportivo com o prestígio de “A Bola” tenha sido utilizado para lançar acusações e conotações falsas sobre um seu ex-colaborador que desde 1947 até praticamente à data da sua morte, em 1968, quando era representante de Portugal na Comissão de Arbitragem da FIFA, deixando inúmeros artigos escritos naquele jornal sobre o futebol e a arbitragem nacional e internacional.
Nota final: Sinto-me muito honrado pela carreira desportiva e jornalística que o meu pai, Filipe Gameiro Pereira, desempenhou, por aquilo que ele fez em prol deste desporto, em tempos tão difíceis como foram aqueles em que viveu, sugerindo aos senhores jornalistas uma visita ao blogue que criei em sua memória para conhecerem melhor aquele que decidiram pôr em causa e que já não se pode defender.
CURRÍCULO DE FILIPE GAMEIRO PEREIRA
Em 2008, no 40.º Aniversário da sua morte inicia-se a divulgação do que foram as suas actividades como árbitro, dirigente e jornalista do futebol português entre 1931 e 1968, recorrendo aos materiais encontrados no seu espólio constituído por artigos publicados, fotografias, apontamentos e outras documentações.
Filipe Gameiro Pereira nasceu em Lisboa a 18 de Agosto de 1911, tendo desenvolvido a sua actividade profissional na Shell Portuguesa ao longo de 43 anos.
Percurso Desportivo
Iniciou-se no futebol como jogador-amador ainda muito novo e, pelos registos disponíveis, calcula-se que tenha exercido essa actividade durante 10 anos, após o que enveredou pela arbitragem.A partir de 1931 foi árbitro nos vários escalões (Regional e Nacional) tendo dirigido também jogos representativos internacionais de clubes.
Depois de 1948 esteve presente na maior parte dos Cursos Internacionais da FIFA como participante ou conferencista (Reino Unido, Espanha, Alemanha, Suíça eTunísia).Após 19 anos de actividade como árbitro, abandona a mesma principalmente por motivos de saúde e dedica-se ao estudo dos problemas da arbitragem, matéria em que se torna um dos melhores especialistas portugueses reconhecido internacionalmente.
É então que passa a ser secretário-geral da Federação Portuguesa e membro da sua Comissão Técnica. De 1950 a 1953 foi secretário-geral da Comissão Central de Árbitros por nomeação da Federação Portuguesa de Futebol e seu presidente durante cinco anos nomeado pelo Ministério da Educação. Neste período ocupou-se também da organização de Cursos de Formação para Árbitros em Portugal onde foi conferencista e director dos mesmos. Fez parte do Conselho Técnico da Federação Portuguesa de Futebol designado pela Associação de Futebol de Lisboa.
Em 1959 Ingressou no Quadro de Leccionadores e Instrutores da Comissão de Arbitragem da FIFA.Em 1966, após o Mundial de Futebol desse ano, foi indicado para a Comissão de Arbitragem da FIFA representando Portugal naquele organismo.
Actividade jornalística
Paralelamente ao seu percurso como árbitro e dirigente escrevia artigos sobre a prática do futebol, desde 1948.É principalmente graças à sua iniciativa que nasce o Boletim Mensal “O Árbitro” onde colabora activamente ao longo dos seus onze anos de existência (1957).
Em 1960-61 escreve regularmente para o jornal desportivo “A Bola” na rubrica “Panorama da Arbitragem” e em 1962 na rubrica “Questões de Arbitragem”.
Entre 1966 e 1968 escreve para os jornais: “Diário Popular” - “Uma vez por semana”; “Record” -“O Campeonato do Mundo de Futebol – 1966”, “Temas de Arbitragem”; “Miscelânea”
Publicou ainda dois livros: “O Que foi o Curso de Londres” (1951) e “Apontamentos sobre a arbitragem do futebol”(1963).
Desde 1953 que se ocupou da organização e direcção dos “Cursos de Aperfeiçoamento de Arbitragem”, tendo sido realizado o primeiro em Lisboa a 23 de Julho de 1954.
Em 1967 leccionou no “I Curso de Treinadores de Futebol” a matéria “Leis do Jogo”. Levou aos mais diversos pontos do país, através de palestras, a informação e o esclarecimento sobre variados temas acerca do futebol e em particular da arbitragem.
Na fase final da sua vida dedicava grande atenção, e esboçou projectos, sobre o “Desenvolvimento do Futebol Juvenil”, tema que infelizmente já não pôde desenvolver.
No Domingo 28 de Abril de 1968, com 57 anos, faleceu na sua casa em Queluz, vítima de um acidente vascular cerebral. Em Agosto do mesmo ano é-lhe conferida a título póstumo a Medalha de Bons Serviços Desportivos.
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Entretanto, no seu blogue (http://fgpereira.wordpress.com/) escrevi o seguinte comentário:
Estimado Amigo e Senhor
Jaime Pereira
Na verdade o jornalista que fez a notícia pretendeu fazer uma brincadeira (de muito mau gosto), mas afectou a dignidade da pessoa de bem que foi Filipe Gameiro Pereira, saindo-lhe o tiro pela culatra, pois ignora em absoluto que há gente que defende e defenderá os princípios de ética e da verdade no futebol português e da sua arbitragem, quando atacada da forma mesquinha como o foi.
Filipe Gameiro Pereira, foi uma pessoa de princípios, sério e extremamente exigente para com as funções que desempenhou, quer na área desportiva (Árbitro conceituado e respeitado e dirigente de alto gabarito), quer na profissional (funcionário superior da Shell Portuguesa) e aparece agora um qualquer dito jornalista a enxovalhar o seu nome, o que, para mim, é um verdadeiro e grave atentado aos bons costumes.
Gameiro Pereira para além de inúmeras e importantes referências elogiosas que recebeu ao longo da sua vida, os cargos de responsabilidade que exerceu, foi, também, o mentor da criação da associação da classe dos Árbitros. Alvitrou, em Maio de 1958, a implementação da entidade que hoje existe, a APAF-Associação Portuguesa de Árbitros de Futebol, fundada em 12 de Maio de 1979.
O dito senhor jornalista em vez de se espalhar no título do artigo e das insinuações que fez, poderia aceder a qualquer motor de busca na net e procurar saber quem foi Gameiro Pereira. Simples! No meu blogue tem matéria bastante para ler e ficar a saber (em pormenor) os feitos e iniciativas dum grande Homem. Deve, pois, fazer mea-culpa, do mal que provocou aos familiares e amigos daquele que não se pode defender, o que lhe ficava muito bem. Quem erra, tem que se penitenciar…
Chamar daltónico a uma pessoa que estava obrigada a fazer periodicamente exames médicos para actuar como Árbitro, essa não lembra a ninguém, se não a uma pessoa que quis ser engraçada e borrou a pintura por falta de senso, categoria e sentido de responsabilidade.
Aquele abraço do
Alberto Helder.






















O trabalho elaborado pelo artista Carlos Rezende, que vem na capa, alusivo à quadra natalícia foi cedido a título gracioso ao Boletim.

ASSIM VAI O MUNDO DA ARBITRAGEM – Esta nova rubrica aborda informação da FIFA e de diversas Federações nacionais que abordam assuntos de vária ordem.
CONFRATERNIZAÇÃO LUSO-ESPANHOLA
PÁGINA DA COMISSÃO CENTRAL – Anuncia que a entrada em vigor do Seguro dos Árbitros será a 30 de Outubro de 1960, culminando assim uma aspiração dos seus filiados que remonta aos primórdios do exercício oficial da função (1910). O presidente cessante da Comissão Central expressa louvores a todos os elementos da redacção do Boletim pela activa e proveitosa actividade que desenvolveram em prol da arbitragem.
APITADELAS – Houve má educação por parte de um clube que no seu campo e através da instalação sonora atacaram a arbitragem e a Imprensa de forma muito dura.
DELEGADOS - Realça-se a actividade eficaz, profícua, consistente e insistente dos seguintes representantes do Boletim: Na foto em cima Alberto do Carmo Lourenço (Nampula), João Lopes Gonçalves (Castelo Branco), Joaquim da Costa Deitado (Inhambane) e Alfredo Bernardo Antunes (Leiria).
BIBLIOTECA – O pouco movimento de ofertas é destaque para que as contribuições sejam mais e melhores. Todos têm de colaborar no engrandecimento desta iniciativa para bem da cultura geral de todos os seus utilizadores.
PINGOS DE TINTA – César de Jesus conta-nos dois episódios dignos de serem conhecidos. O primeiro foi passado num jogo regional no Norte do país entre dois grupos que disputavam os pontos de capital importância para as suas aspirações. Acontece que o clube da casa marcou um golo e o Assistente correu para o meio campo considerando válido o ponto. Já o Árbitro assim não entendeu e a polémica instalou-se dentro e fora do rectângulo. Instado a consultar o seu auxiliar assim o fez que confirmou que, para si, não havia qualquer irregularidade na obtenção do golo. No final os directores da equipa visitada queriam que o Assistente assinasse uma declaração afirmando ter o ponto sido legal! Naturalmente que recusou. Mas, para amedrontar o Árbitro, até exigiam-lhe a declaração aposta no relatório, dado que se havia equivocado, isto para lhe salvarem a vida, segundo diziam… Analisado o comportamento dos adepto, dos jogadores e dirigentes houve punições para todos e para o campo também, pois até foi interditado!
O segundo caso decorreu num jogo dito amigável, com a falta do árbitro nomeado. Recorreram a um antigo e categorizado jogador que se encontrava na bancada, que acedeu dirigir o prélio. Iniciada a partida e depois de muitas contrariedades, invectivado pela multidão e pelos intervenientes teve a seguinte ideia genial. Num momento de inspiração, tendo a bola a seus pés, driblou um jogador no meio do terreno, depois outro e por fim ainda mais um e só parou quando calmamente fez golo! Depois, tirando o apito fora desabafou: É assim que se joga seus anjinhos…
