-O saudoso Joaquim António Bento Pita-
Faz hoje
precisamente 32 anos que a fatalidade bateu à porta do futebol, mais
concretamente no sector da arbitragem, atingindo de forma brutal os nossos
colegas que, quinze minutos antes, tinham acabado de dirigir um jogo naquela
simpática freguesia alentejana do Concelho de Vila Viçosa.
Após
aquele período de tempo de espera a equipa forasteira queria ir-se embora e levar
os cartões dos jogadores que estavam em poder do Árbitro. Bateram à porta da
sua cabina e ninguém respondeu. Insistiu-se, e nada. Pediram a um garoto que visse
o que se passava através do respirador nas traseiras. Apercebe-se que os três
elementos estavam no chão, inanimados e semi-nus. Soa o alarme. Tentou-se
arrombar a porta de ferro à força, à pezada, mas tal não foi viável. Com os
encontrões a chave que se encontrava da parte de dentro caiu da fechadura e, só
assim, é que foi possível, com a utilização de uma segunda chave, chegar até
aos infortunados. O director do clube local, Caetano Calisto, foi quem entrou
em primeiro lugar logo seguido do Comandante Almeida, da Guarda Nacional
Republicana. Indescritível o que se passou a seguir perante o que se via! Três
corpos inertes no chão! O Joaquim Pita era o que estava mais perto do chuveiro.
Havia que actuar rapidamente. Nas duas equipas, antes adversárias, encontravam-se
jogadores enfermeiros que, vendo o estado crítico dos três elementos da equipa
de arbitragem, iniciaram de imediato manobras de reanimação, quer através de
massagens ao coração como respiração boca-a-boca. A situação não evoluía
favoravelmente e foi resolvido evacuá-los de imediato para o posto médico de
Vila Viçosa, o que fizeram em autocarro, onde seguiram dois e o terceiro numa
viatura ligeira. Aí não se pôde resolver o gravíssimo problema e foram
remetidos para o Hospital de Évora, onde chegaram por volta das 20H30. Ficaram em
observação umas horas, mas os médicos, vendo que o seu estado clínico piorava,
decidiram transferidos para o Hospital de São José, em Lisboa, onde chegaram em
estado exageradamente aflitivo. Um dos infelizes, o Joaquim António Bento Pita
(na foto), veio a falecer no Hospital lisboeta às 13H45 na quarta-feira, dia 11.
Os seus companheiros de infortúnio continuavam em estado desesperado.
-Caetano Calisto é entrevistado pelo jornalista-
Registe-se
os nomes dos filiados do Conselho de Arbitragem da Associação de Futebol de
Évora, que dirigiram o desafio: Árbitro, Diamantino Joaquim Fonseca Gomes (n.
04.03.1952, 29 anos, natural de Évora, 6 anos na arbitragem. Esteve 30 dias em
coma). Auxiliares: José Manuel Rasteiro Vieira (39 anos, natural do Redondo) e
Joaquim António Bento Pita (26 anos, feitos na véspera do jogo).
O jogo em
questão realizou-se no dia 8 de Março de 1981, no campo Pereira Bom, entre as
equipas principais do Sport Clube Bencatelense (f. 01.01.1945) e o Lusitano
Clube Desportivo Arraiolense (30.07.1975) e contava para a 21ª jornada do
principal Campeonato Distrital da Associação de Futebol de Évora disputado por
16 grupos, com o anfitrião em 8º lugar com 21 pontos e o visitante em 3º com
28. O resultado do jogo já não tinha qualquer interesse quer para ascensão quer
para descida. Durante o desafio, nada mais especial se passou do que o Árbitro ter
exibido o cartão amarelo por 4 vezes, incluindo ao guarda-redes de Arraiolos. A
equipa da casa ganhou por 1-0 e os Árbitros saíram do rectângulo de jogo
bem-dispostos. As cabinas tinham sido construídas há 6 anos. Não existia
fossa, mas a botija de gás do esquentador estava directamente em contacto com a
cabina dos Árbitros, esta com uma frincha de respiração muito pequena, como se
pode constatar na 4ª foto.
De manhã estiveram
em Borba, no encontro de juvenis que acabou empatado (2-2), entre as turmas do Sport
Clube Borbense (f. 13.04.1945) e do Sport Clube Alcaçovense (01.01.1926), com o
Joaquim Pita a exercer as funções de Árbitro e os outros colegas como
auxiliares. Almoçaram num restaurante local onde iam frequentemente e a
refeição foi comum aos três, comendo cada qual, uma dose de vitela guisada com batatas
e ervilhas, beberam cafés e, dois deles, um cálice de aguardente. Acabaram a
refeição por volta das 13H30. O jogo estava marcado para as 15H00.
O funeral
do saudoso Joaquim Pita, em 14 de Março, foi uma enorme e comovente
manifestação de pesar, nele se incorporaram milhares de pessoas. O féretro saiu
da Igreja de São Tiago (Évora), depois da celebração de missa de corpo
presente, para o cemitério local. Os cerca de 800 metros que distam entre si
foram percorridos em mais de uma hora. Imensas colectividades desportivas e
culturais da região fizeram-se representar com os seus estandartes. Nas sedes
dos clubes as bandeiras ficaram a meia-haste. Em sua memória foi cumprido um
minuto de silêncio nos campos de futebol.
Entretanto,
as autoridades judiciais, desportivas e demais encetaram um conjunto de
iniciativas para se apurar qual a verdadeira causa do sucedido, assim como
medidas para que jamais se volte a repetir tão infausto acontecimento.
A
APA-Associação Portuguesa de Árbitros (naquele tempo, era assim que se
designava), através de comunicado, exige a instauração de rigoroso inquérito à
Secretaria de Estado dos Desportos, chamando, desde logo, entre outras
pertinentes reivindicações, atenção para as péssimas condições das instalações
para os Árbitros, existentes em todo o território nacional. Mais comunicou à
Federação Portuguesa de Futebol da urgente necessidade de José Vieira ser
transferido para uma unidade clínica que lhe prestasse melhor
acompanhamento.
O
Secretário de Estado dos Desportos (Duarte Nuno Carvalho Gomes de Castro) incumbiu
o Director-geral dos Desportos (Henrique Ruivo Reis Pinto) de promover as
diligências necessárias à determinação da causa de morte do Árbitro Joaquim
Pita. Entretanto, aquele dirigente recebeu uma representação da Associação de
classe, constituída por José Luís Moreira Tavares, Presidente da Mesa da
Assembleia-geral, Mário João Carvalho Real, Alfredo Nunes Basílio e Amaro
Pereira de Matos, respectivamente Presidente, Vice-Presidente e Vogal da
Direcção, os quais expuseram de viva voz fundamentos bastantes para que a
tutela estudasse e legislasse sobre o que, infelizmente, aconteceu, na
expectativa de se evitar estas e outras fatalidades nos campos de futebol,
aproveitando para reforçar a exigência quanto à erradicação da violência no
desporto, que as vistorias aos campos de futebol fossem rigorosas e frequentes.
Muito se
especulou quanto ao porquê da desgraça, adiantando-se várias hipóteses, como a
Electrocussão (por terem sido os três atingidos quase que instantaneamente), congestão,
indigestão, intoxicação alimentar ou gás tóxico vindo de fossa de dejectos, contudo,
a Polícia Judiciária que liderou o processo desde a primeira hora, chega à
conclusão, depois de aturados e delicados exames laboratoriais, que os colegas
foram vítimas de “Intoxicação tardia de monóxido de carbono”, com a seguinte
justificação: “Elevadíssimas percentagens de monóxido de carbono no interior
da cabina dos Árbitros, resultantes da combustão incompleta do esquentador.
Aparelho de grandes dimensões em compartimento distinto, as inúmeras fendas
existentes nas tijoleiras da placa do tecto terão permitido a passagem do gás
venenoso formado à saída dos queimadores que, ocasionalmente, se encontravam em
mau estado de funcionamento, queimando mal”.
Para
melhor entender o comunicado da PJ, refira-se que a ocorrência que afectou
estes nossos camaradas não foi única. Vejamos: Em 1 de Fevereiro de 1981, no
mesmo campo e na mesma cabina o Árbitro José Alberto Godinho Ramalho, que teve
como colegas auxiliares José António Alves Mendes e Carlos Manuel Ramalho na
direcção do jogo Bencatelense-Grupo Desportivo e Recreativo de Canaviais (f.
09.06.1975), começou a sentir-se desmaiar. Deixou cair as chaves no chão e não
conseguiu apanhá-las. Saiu para o exterior e sentiu-se melhor. Foi visto por
médico de Reguengos de Monsaraz que lhe disse que o caso podia ter sido muito mais
grave… Outra: Quinze dias antes da fatalidade que envolveu Joaquim Pita e
colegas, outro Árbitro, o Engº Luís Medeiros sentiu uma forte indisposição na
referida cabina… Eloquente!
As consequências
deste fatal acidente foram igualmente catastróficas: A viúva de Joaquim Pita
(Dª Almerinda da Conceição Oliveira Vilela Bento Pita, de 18 anos de idade, mãe
de Sandra, com 2 e Sérgio de 7 meses), viu-se sem o sustento da casa e dos
filhos. Diamantino Gomes ficou com estado clínico extremamente desfavorável, ao
ponto do relatório psiquiátrico apontar para “um simples estado vegetativo”. O
seu pai quis vender a casa onde habita para custear as despesas de recuperação
do filho no estrangeiro. José Vieira, cujas sequelas abalaram-no profundamente.
Um quadro muito, mas mesmo muito trágico…
No
anúncio fúnebre da celebração de missa dos 30 dias, a Associação de Futebol de
Évora, o seu Conselho de Arbitragem e a viúva e demais familiares agradecem as
manifestações em memória de Joaquim Pita.
Entre
outras iniciativas levadas a efeito para tentar minorar a fatalidade, a APA recebeu
a quantia de 38.260$00, fruto de dádivas de colegas de todo o Portugal, destinada
aos três desditosos. Encarregou-se o delegado da APA em Évora, José Elviro de
Almeida Serra de proceder à respectiva entrega, com Diamantino Gomes a dispensar
a sua parte em favor dos desventurados colegas. Ao José Vieira foram entregues
19.130$00 assim como ao pai do saudoso Joaquim Pita, que abriu conta bancária
no Montepio Geral em favor dos seus netos (10.000$00, cada), tendo José Serra,
a título pessoal, contribuído com 870$00, perfazendo o montante indicado.
Um drama
que abalou o futebol e a arbitragem especialmente.
Não conhecia este triste acontecimento, apesar de já se terem passado 32 anos, congratulo por se lembrar destes nossos colegas, tragédias destas são sempre difíceis de recordar, mas as mesmas devem ser recordadas para que no futuro se possam evitar novamente tragédias semelhantes.
ResponderEliminarQue descansem eternamente em paz!
Um bem haja!
Caro Alberto Hélder,
ResponderEliminarParabéns por esta crónica. A forma como o faz presta uma sentida e merecida Homenagem às infelizes vítimas de tão infausto acontecimento.
Bem haja!
Abraço,
Pedro Paraty
Bem haja pela bonita homenagem que prestaste às vítimas desta tragédia que marcou a minha geração da arbitragem eborense. Abraços.
ResponderEliminarJosé Serra.
Parabéns... Justa homenagem... E o mais importante: uma crónica honesta.
ResponderEliminarÉ que eu estava lá. Tinha 19 anos.
Nesse jogo era o guarda redes suplente da equipa da Casa - o S.C. Bencatelense -.
Na foto o meu amigo Caetano.
O que vitimou aqueles senhores, poderia ter acontecido a qualquer de nós, jogadores do clube.
Quantos treinos ali fizemos naquelas circunstâncias, quanto jogos amigáveis e oficiais...
Naquela maldita cabine era onde, nos treinos, se equipavam os nossos treinadores, onde registava-mos o peso e tantos de nós utilizámos, para tomar banho.
O maldito gás, qual assassino silencioso, infiltrou-se e provocou a tragédia.
Foi muito mau para todos; atletas, dirigentes e população em geral.
Ainda hoje me lembro de tudo. Perfeitamente.
A minha homenagem a todos aqueles que, de alguma maneira, sofreram com a tragédia.
luis gancho
Parabéns...
ResponderEliminarJusta homenagem...
E o mais importante: uma crónica honesta.
É que eu estava lá.
Tinha 19 anos.
Nesse jogo era o guarda redes suplente da equipa da Casa, o S.C. Bencatelense.
Na foto o meu amigo Caetano.
O que vitimou aqueles senhores, poderia ter acontecido a qualquer de nós, jogadores do clube.
Quantos treinos ali fizemos naquelas circunstâncias, quanto jogos amigáveis e oficiais...
Naquela maldita cabine era onde, nos treinos, se equipavam os nossos treinadores, onde registavamos o peso e tantos de nós utilizámos, para tomar banho.
O maldito gás, qual assassino silencioso, infiltrou-se e provocou a tragédia.
Foi muito mau para todos; atletas, dirigentes e população em geral.
Ainda hoje me lembro de tudo. Perfeitamente.
A minha homenagem a todos aqueles que, de alguma maneira, sofreram com a tragédia.
Luís Gancho
Bom dia,
ResponderEliminarSó hoje e por acaso descobri esta página. Sou prima e criada como irmã,fazendo anos no mesmo dia do Joaquim Pita, para mim e restante família foi um crime sem que ninguém fosse responsabilizado pelo sucedido, havendo casos de pessoas que se sentiram mal pelo gás libertado, o balneário deveria ter sido selado e proibido o uso do mesmo, pelas respetivas autoridades competentes. por isso essas mesmas autoridades e o presidente do clube foram os responsáveis pela morte do meu querido primo.
Se essas mesmas pessoas ainda estiverem vivas, só lhes desejo o mesmo sofrimento que causaram ás famílias desses árbitros atingidos, não foram castigados pela justiça dos homem, mas há a justiça de Deus.