domingo, 17 de fevereiro de 2013

O ÁRBITRO PROFISSIONAL – POR ADRIANO PEIXOTO

O artigo que a seguir se transcreve, escrito há 50 anos por este jornalista, crítico e escritor, mas acima de tudo pelos seus créditos e profundo conhecedor do futebol, veio publicado no Boletim O Árbitro nº 67, de Janeiro de 1963, texto que não deixa de ter a sua importância e merecer atenta análise nos dias de hoje…
Adriano Artur Ferreira Peixoto, grande estudioso e um nato apaixonado pelo desporto-rei e do seu desenvolvimento, escreveu e publicou os seguintes livros: Em 1948, “O futebol português e o sistema Herbert Chapman”; em 1951, “Futebol-Problemas de táctica” e em 1965, “As grandes tácticas do futebol”. Foi colaborador do periódico Voz de Coimbra e director da publicação “Selecções Desportivas”, da Editora Atlântida (Coimbra, 1951/52).
Treinou diversas equipas, funções em que se distinguiu pela preocupação de aprofundar os problemas estratégicos do jogo. Chegou a Seleccionador da equipa nacional de juniores que se estreou em competições internacionais, tendo declinado o convite para ser o responsável pela equipa principal. Faleceu em 5 de Março de 1968.
 Como curiosidade e enquanto primeiro responsável da selecção mais jovem do futebol português diremos que a orientou nos encontros do VII Torneio Internacional de Juniores, todos disputados na Alemanha no mês de Abril de 1954: Sollingen, dia 11, com a República da Irlanda (2-2); Essen, dia 13, com a Jugoslávia (1-1); Bochum, dia 14, com a Espanha (0-6); Machernick, dia 17, com a Holanda (2-4); e, por último, Bona, dia 18, com a Inglaterra (2-0).
O largo âmbito profissional do futebol moderno envolve uma questão que impõe, por sua vez, sérias meditações: se o Árbitro deve ser também um verdadeiro profissional, como os Jogadores e Treinadores, que o são, efectivamente; se deve manter-se na situação presente de um semi-profissionalismo ou, de facto, sustentar a posição de um amadorismo mais ou menos vago que continua a observar-se em povos como a Suécia, Noruega, Dinamarca, Bélgica, etc.
Se à ideia de profissão, ligarmos os conceitos de actividade que se exerce diária e remuneradamente, é evidente que o árbitro não pode ser um profissional, pela simples razão de não exercer o seu mister por forma efectiva e permanente.
Porém, aqueles conceitos têm sido profundamente alterados pela vida moderna que criou algumas profissões em que a efectividade e a permanência sofrem um certo desvio, pois alguns profissionais não têm como se sabe, uma actividade diária nem constante.
Sendo assim, não haverá motivos que impeçam o Árbitro de ser considerado profissional.
Por enquanto o único impedimento estará em não receber uma remuneração que lhe consinta viver exclusivamente dela.
Mas convirá ao futebol que o juiz de campo seja profissional integral?
Se o Árbitro for profissional, não o terão de ser também os juízes de linha?
Acaso será possível manter os seus auxiliares na subalternidade do presente pseudo-amadorismo?
Tal desigualdade não constituirá uma fonte de trabalho para a própria direcção da arbitragem?
Procurando, de algum modo, responder a cada um dos pontos de vista acima contidos, diremos que o juiz de campo pode, com efeito, ser profissional sem que isso afecte ou perturbe a vida social e, muito menos, o jogo.
No seu magnífico “Sport e Saúde” (sumário de medicina desportiva), o dr. Filipe Encausse diz que Jean Amslor, professor agregado do liceu de Troyes, autor de um trabalho sobre futebol, assinala que num encontro da modalidade é o Árbitro que percorre mais terreno, em média 15 quilómetros durante os 90 minutos, pois no respeitante aos jogadores esses mesmos números: extremos, 5.900 metros; interiores 5.300 metros; médios, 5.000 metros; avançado-centro, 4.330 metros; defesas, 3,800 metros e guarda-redes 1.000 metros no máximo.
Como os juízes de campo têm que despender um grande esforço, torna-se necessário submetê-los a uma observação médica insistente, que é obrigatória em França, a partir de 1961, conforme o preceituado pelo Alto-comissário da Juventude e dos Desportos.
A obrigatoriedade desta observação, determinada pelo esforço que se pede ao Árbitro, envolve, por seu turno, uma preparação tão ao mais aturada, evidentemente, que a dos jogadores.
Logo, os cuidados que o juiz de campo tem de ter consigo no referente à condição física, situam-se no paralelo em que o profissionalismo colocou o futebolista.
Até aqui tudo parece militar a favor da sua profissionalização.
O semi-profissionalismo e muito menos o amadorismo não dão as mesmas garantias relativamente à observação de um certo número de preceitos que a noção e o espírito de profissão encerram, estabelecem e exigem.
O Árbitro de qualquer destes tipos, o segundo mais do que o primeiro, naturalmente, descurarão a preparação, sem que com isso se considerem sob o peso de graves responsabilidades, julgando-se a si próprios com bastante benevolência quanto às culpas que lhe são assacadas”.

Sem comentários: