domingo, 15 de dezembro de 2019

OS COMANDOS NOS TRÊS TEATROS DA GUERRA DO ULTRAMAR – GRUPOS INICIAIS - APRESENTAÇÃO E PROGRAMAÇÃO

No início do ano expus ao presidente da Direcção Nacional Associação de Comandos, Senhor Dr. José Ângelo Lobo do Amaral, um projecto que idealizei e pretendo levar a efeito dando realce aos Comandos que cumpriram a sua grata e honrosa missão em África, durante o conflito que decorreu entre 1961 e 1975.
Será um trabalho criteriosamente idêntico ao que fiz com as 121 unidades da Polícia Militar que, também, com galhardia e pundonor estiveram em Angola, Cabo Verde, Guiné, Macau, Moçambique, São Tomé e Príncipe e Timor.

O senhor Presidente Lobo do Amaral, e seus pares, deram o respetivo aval para avançar.
Nesse sentido, comunico, então, que a primeira série do trabalho que envolve os Grupos de Comandos, os iniciais, que atuaram e cumpriram a sua gloriosa missão, entre 1962 e 1965, em Angola, Guiné, e Moçambique, englobando 957 Comandos (34 Oficiais, 125 Sargentos e 798 Praças), vai ser publicada neste blog.
Destaca-se, naturalmente, as condecorações recebidas (Cruz de Guerra, Valor Militar e Mérito Militar), e os registos, que se lamentam profundamente, das mortes que se verificaram durante o conflito, vai ser apresentada neste blog, nos dias que a seguir se indicam:
 
OS VAMPIROS
BAT. CAÇ. 185 – ANGOLA - 01
16 de dezembro de 2019 (segunda)
 
O AÇO
BAT. CAÇ. 186 – ANGOLA - 02
17 de dezembro de 2019 (terça)
OS PEDRA
BAT. CAÇ. 261 – ANGOLA - 03
18 de dezembro de 2019 (quarta)
OS NOQUI (A)
BAT. CAÇ. 280 – ANGOLA - 04
19 de dezembro de 2019 (quinta)
OS ZEMBA (B)
BAT. CAÇ. 280 – ANGOLA - 05
20 de dezembro de 2019 (sexta)
OS FANTASMAS I
BAT. CAÇ. 317 – ANGOLA - 06
23 de dezembro de 2019 (segunda)
OS FALCÕES
BAT. CAÇ. 325 – ANGOLA - 07
24 de dezembro de 2019 de 2019 (terça)
OS CORSÁRIOS A
COMP. CAÇ. 365 – ANGOLA - 08
25 de dezembro de 2019 (quarta)
OS CORSÁRIOS B
COMP. CAÇ. 365 – ANGOLA - 09
26 de dezembro de 2019 (quinta)
OS CORSÁRIOS C
COMP. CAÇ. 365 – ANGOLA - 10
27 de dezembro de 2019 (sexta)
OS SEM PAVOR
BAT. CAÇ. 379 – ANGOLA - 11
30 de dezembro de 2019 (segunda)
OS DESTEMIDOS
BAT. CAÇ. 380 – ANGOLA - 12
31 de dezembro de 2019 (terça)
 
OS TIGRES

BAT. CAV. 399 – ANGOLA - 13
1 de janeiro de 2020 (quarta)
OS GATOS
BAT. ART. 400 – ANGOLA - 14
2 de janeiro de 2020 (quinta)
OS ESCORPIÕES
BAT. CAV. 437 – ANGOLA - 15
3 de janeiro de 2020 (sexta)
OS APACHES
BAT. CAÇ. 442 – ANGOLA - 16
6 de janeiro de 2020 (segunda)
OS CENTURIÕES
BAT. CAÇ. 503 – ANGOLA - 17
7 de janeiro de 2020 (terça)
OS SOMBRAS
BAT. CAÇ. 505 – ANGOLA - 18
8 de janeiro de 2020 (quarta)
OS AUDAZES
BAT. CAÇ. 511 – ANGOLA - 19
9 de janeiro de 2020 (quinta)
OS LEOPARDOS
BAT. CAÇ. 540 – ANGOLA - 20
10 de janeiro de 2020 (sexta)
OS FANTASMAS II
BAT. CAÇ. 547 – ANGOLA - 21
13 de janeiro de 2020 (segunda)
OS RELÂMPAGOS
BAT. CAÇ. 595 – ANGOLA - 22
14 de janeiro de 2020 (terça)
OS MAGNÍFICOS
ANGOLA - 23
15 de janeiro de 2020 (quarta)
OS FANTASMAS
GUINÉ - 24
16 de janeiro de 2020 (quinta)
OS CAMALEÕES
GUINÉ - 25
17 de janeiro de 2020 (sexta)
OS PANTERAS
GUINÉ - 26
20 de janeiro de 2020 (segunda)
OS VAMPIROS
GUINÉ - 27
21 de janeiro de 2020 (terça)
OS APACHES
GUINÉ - 28
22 de janeiro de 2020 (quarta)
OS CENTURIÕES
GUINÉ - 29
23 de janeiro de 2020 (quinta)
OS DIABÓLICOS
GUINÉ - 30
24 de janeiro de 2020 (sexta)
OS VAMPIROS
MOÇAMBIQUE - 31
27 de janeiro de 2020 (segunda)
OS SOMBRAS
MOÇAMBIQUE - 32
28 de janeiro de 2020 (terça) 

Quem participou nos Cursos realizados em Angola, Guiné e Moçambique;
Números e nomes das Companhias mobilizadas na Metrópole para África;
Consagração dos Comandos galardoados pelos seus feitos;
Tributo aos Comandos que morreram no cumprimento do dever; e
Conclusões. 

Refiro que esta tarefa (agradável, diga-se) é o resultado das inúmeras informações recolhidas em imensos documentos consultados na Associação de Comandos, no Arquivo Geral do Exército, Arquivo Histórico Militar e Biblioteca do Exército, a quem estou imensamente grato pelo esforço despendido em satisfazerem os meus pedidos, tudo sempre com boa vontade e um sorriso cativante e atencioso. 

Contudo, terei de deixar bem vincado que o admirável, histórico e fantástico desenvolvimento, nesta área, feito pela CECA-Comissão para o Estudo das Campanhas de África muito me ajudou a compilar todo o trabalho que trago à vossa presença, sem o qual dificilmente apresentaria algo de qualidade. O meu bem haja aos seus elementos. 

Também foram feitas pesquisas na Internet e realizados contatos com ilustres Comandos que responderam positivamente às solicitações que lhe foram colocadas. A todos o meu profundo agradecimento. 

Entretanto, perante a enormíssima quantidade de Louvores que foram atribuídos a nível individual e às unidades, por toda a hierarquia militar, desde a mais credenciada chefia até aos Comandantes das Unidades, mas, por falta desses dados pormenorizados, importantes num plano desta envergadura, não me foi possível dar o merecidíssimo relevo, pedindo desculpa por tal falta. 

Contudo, irá ser divulgada lista com os nomes dos Comandos que foram agraciados com galardões e a sua especificidade. Ressalve-se o facto das Medalhas de Serviços Distintos e de Mérito Militar não terem merecido o devido levantamento pormenorizado por quem de direito, direi, com bastante pena, não ser possível, nalguns casos, revelar a quem foram atribuídas. 

A homenagem aos Comandos que faleceram durante o decorrer da missão no Ultramar será feita com dignidade, respeito e honra, dando-lhe o devido espaço, com as referências fúnebres de cada militar. 

Por fim, sobre o tema global, recolhi alguns apontamentos que julgo ser importante divulgar, o que faço desde já: 

UM COMANDO É O EXEMPLO PERMANENTE DAS QUALIDADES DO VERDADEIRO MILITAR E COMBATENTE POR EXCELÊNCIA QUE POR SI SÓ SE BASTA, ACTUA E COMPLETA! 

Ser Comando é uma forma diferente de estar na vida. Uma vez Comando, é para todo o sempre!

Mas para se atingir a performance desejável num militar pronto e apto para desempenhar a mais árdua das missões militares, a exigência era, na altura, fator predominante e principal: ser voluntário; possuir desembaraço físico; ter capacidade de resistência à fadiga: ser decidido; ter espírito de sacrifício; usufrui de reflexos rápidos; ser pouco impulsivo assim como pouco impressionável; saber nadar, saber conduzir e operar com rádio. 

Na primeira seleção dos 200 inscritos, ficaram 80 e só terminaram o curso, com aproveitamento, 50 dos instruendos. 

Na altura, só foram Comandos aqueles que passaram por treinamento próprio depois de rigorosa seleção e que pode porque é física e psicologicamente robusto; e que sabe porque conhece o combate; e que quer porque tem princípios e o culto de Honra. 

A interpretação generosa e total do Código Comando é a referência fundamental desta especialidade militar.

A escolha do local do primeiro Centro de Instrução para Comandos foi baseada num princípio prático: ficaria numa área onde abundassem os inimigos. Deste modo, além do treino especial dos militares, obter-se-á o aniquilamento dos bandos inimigos que por lá andassem… 

Mas, todas as histórias têm o seu início e a dos Comandos não foge à regra já que, em 11 de junho de 1958, o então Ministro do Exército encarrega o Major Hermes de Oliveira de estudar a questão e assumir a direção da instrução em Portugal. E avançou-se com o assunto juntando gente e ideias, para levar adiante Unidades Especiais de utilização imediata, nos seguintes escalões: Grupos de ação: 1 Cabo e 8 Soldados, Unidades de missão: a nível de seção (+/- 10 homens); Unidades de combate: a nível de Pelotão (+/- 30 homens); Unidade tática: Companhia (120 homens); Unidade administrativa: Batalhão (+/- 600 homens). 

Em Março de 1959 deslocou-se à Argélia (onde decorria o conflito sangrento que levou à independência da colónia francesa), uma delegação constituída por 6 Oficiais superiores no intuito de localmente o maior número de ensinamentos para a futura formação das tropas portuguesas. Este grupo esteve 10 dias em Paris e um mês no Norte de África e tomou nota de matérias sensíveis, como: a guerra psicológica; sociologia muçulmana; o conhecimento do adversário; a adaptação da tropa à guerra revolucionária; a relevância do tiro instintivo; operações; apoio aéreo; e a educação física militar. 

Contudo, os militares portugueses foram preparados com mais rigor e cuidado nas áreas de topografia, com leitura de cartas, orientação pela bussola e pelos astros; primeiros socorros; técnica de combate; transposição de pista de combate debaixo de fogo real; e a extensão do trabalho de estrada na preparação física militar. Na educação militar e cívica o pessoal foi instruído quanto à forma como devia relacionar-se com as populações ultramarinas. Esta primeira fase foi passada no Batalhão de Caçadores 5 (Lisboa) e o pessoal, em Abril de 1960, seguiu para Lamego (Centro de Instrução de Operações Especiais), onde foi dado início à preparação de operações especiais de contra guerrilha, tais como: a emboscada; a nomadização; o cerco e limpeza, entre outras técnicas.
 
Em 22 de abril de 1959, O Estado Maior do Exército estabelece diretiva, com carater de urgência, para ser criado um Centro de Instrução especializado para preparar a tropa para operações contraguerrilha, guerra subversiva, que veio a acontecer em África. 

O pessoal que estava em exercícios, embarcou em 2 de junho de 1960 para Angola, para Luanda. Falou-se, ainda, na criação do Centro Inter-Armas, em Cabinda, mas a ideia não se concretizou por divergências interpares. Para executar as ditas missões especiais em Angola, exigia-se, em alto grau, total abnegação; grande espírito de sacrifício; alta compreensão do dever militar perante os perigos que ameaçavam a Pátria e o desejo incontido de vencer.
 
Bem, depois foi o terrível conflito que chegou e se desenvolveu, a chamada Guerra no Ultramar, com todas as circunstâncias conhecidas. 

Em 10 de novembro de 1961 ocorreu um fatídico acidente aéreo em Chitado que vitimou oficiais, os quais ao serem substituídos nas suas funções deram abertura à decisão de se criar o tão desejado Centro de Instrução de Comandos, o que aconteceu na Zemba, o CI 21. 

E assim se começou a preparar os Comandos! 

Urgia, portanto, preparar as tropas para uma possível guerra mais dura do que nunca, criar a mística do segrego, da astúcia, do silêncio e do desembaraço. Sem demora criar militares capazes de fazer a guerrilha, de raciocinar sob as piores condições de clima, dotados de inteligência para poderem desembaraçar-se duma situação perigosa, audácia para dar caça sem tréguas ao inimigo, coragem para fazer uso de armas silenciosas, dotados de espírito de equipa de modo a atuar em conjunto tendo sempre em vista que o grupo a que pertencem não pode ser comprometido. 

Ter sangue frio necessário para deixar o inimigo aproximar-se ou aproximar-se do inimigo sem se precipitar, comprometendo-se ou comprometendo o seu grupo, ter preparação física necessária para poder fazer longas marchas, ser resistente fisicamente e moralmente para passar as maiores privações, sem desanimo ou desalento.  Ter paciência de, se necessário, esperar horas, sem falar e sem mexer para surpreender o inimigo, a perseverança para caçar o inimigo, custe o que custar. Ser capaz de desencadear um golpe brutal e desaparecer rapidamente, atuando como verdadeiros fantasmas, quer de noite quer de dia. Autoconfiança das suas possibilidades, agressividade consciente, domínio das situações mais críticas, invulnerabilidade ao isolamento, à fadiga, aos perigos do desconhecido e à desorientação da surpresa. 

Não é possível encontrar todas estas qualidades na maioria dos casos. Daqui a necessidade de criar equipas especialmente selecionadas e preparadas para o efeito, baseadas essencialmente no voluntariado. 

Foi a 25 de junho de 1962 que o CI 21 viu a constituição da fase preparatória da construção que se iniciou a 12 de agosto de 1962, tendo terminado a 9 de setembro de 1962, dia em que começou a instrução do Curso, que terminou em 1 de dezembro de 1962. 

As matérias desenvolvidas, foram: Treino físico, desportos e pistas; tática; informações; organização de terreno; explosivos e artifícios de fogo; ligação; orientação e observação; saúde e primeiros socorros; sobrevivência; campo de infiltração; tiro; ação psicológica; interação da FA: e atuação com helicóptero. 

As aulas decorriam no seguinte horário: manhã, das 07H00 às 11H30; tarde, das 14H30 às 17H00; noite, das 19H00, por vezes sem hora para terminar. 

Desistências do curso, só devido a doença, baixas em combate e falta de aptidão. 

Outras matérias eram ministradas com cuidado e responsabilidade, casos da alimentação, armamento, fardamento, descanso e outras atividades relacionadas com a função militar. 

Os primeiros 22 Grupos de Comandos foram constituídos expressamente por militares oriundos de Batalhões que chegaram a Angola para cumprir a sua missão, sendo a grande maioria voluntários. 

SÍMBOLOS 

DISTINTIVO

O modelo adotado, tinha as seguintes definições:
Um capacete: sinal militar
Um punhal virado para cima: sinal de coragem e vitória
A coroa de louros: sinal de triunfo, glória e destemor 

LEMA
“Audaces Fortuna Juvat”
Verso latino da Eneida, de Virgílio.
Tradução:
  A Sorte Protege os Audazes! 

GRITO DE GUERRA
“Mama Sume!”
Expressão usada pelos membros da tribo Bantu (Sul de Angola),
na cerimónia de entrada na vida adulta.
Tradução:
Aqui estamos, prontos para o sacrifício! 

IMPORTANTE: Este e outros trabalhos relacionados com o tema Comandos serão por mim oferecidos à Associação de Comandos. 

Solicito que se se verificar existirem lapsos, omissões e imprecisões neste complexo trabalho, agradeço que me façam chegar as vossas estimadas observações para proceder, de imediato e em conformidade. 

Espero que gostem do trabalho e estou pronto para receber as observações que acharem por bem.

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