domingo, 2 de janeiro de 2011

MANOEL SERAPIÃO FILHO ENTREVISTADO PELO APITO NACIONAL

Reproduzo, com a devida vénia e os necessários ajustamentos, do site brasileiro “apitonacional.com.br”, a entrevista que realizou em Novembro último com o meu bom amigo Manoel Serapião Filho, membro da Comissão de Arbitragem da CBF-Confederação Brasileira de Futebol. A saber: Desta vez, as questões foram enviadas para os instrutores, aqueles que trabalham com afinco na melhora da arbitragem brasileira. Nunca se trabalhou tanto como agora e os resultados estão aparecendo, os erros continuam e nunca terminarão de vez devido a fiabilidade do ser humano, só que agora em menor escala. O entrevistado de hoje é o bom baiano Manoel Serapião Filho que gentilmente atendeu ao nosso pedido. Formado árbitro em 1971. É a favor da tecnologia no lance de facto, aquele que não depende de interpretação e defende que a mulher faça o mesmo teste físico dos homens e acrescenta "O mundo clama por igualdade, minimizar a exigência para as mulheres seria uma discriminação que as mulheres fortes não desejam. O resultado seria o mesmo que a designação de um árbitro despreparado". Serapião: "Viver com o dinheiro de arbitragem, sou contra, radicalmente contra, pois criaria dependência do árbitro".
Fale sobre sua carreira. Como chegou na arbitragem, quando realizou o curso, o que marcou nesta época de escola, qual o principal conselho recebido, qual o primeiro jogo no futebol profissional, quantos jogos no futebol profissional, quantos clássicos atuou?
R: Fui diplomado na Bahia, em curso com um ano de duração, em 1971. O mais importante conselho recebido foi: "o próximo jogo deve ser encarado como o primeiro e último. Quando não tiver mais entusiasmo deixe o apito". Meu primeiro jogo de profissionais foi um amistoso entre Bahia-Corinthians, como assistente e Vitória-Ipiranga, como árbitro, este pelo campeonato baiano de 1973. Arbitrei mais ou menos 850 jogos. Os clássicos que dirigiu entre o Bahia e o Vitória foram muitos (31). Três finalíssimas do Campeonato Nacional, como assistente; 6 semifinais como árbitro; duas finais da Série B, antiga Taça de Prata; uma final e uma semifinal de Taça dos Libertadores, como assistente e como árbitro e muitos outros clássicos entre as principais equipas do Brasil. A importância da família, dos amigos e de ter ou não jogado futebol para sua carreira.
R: Sem família, sem apoio dos amigos e do meio social é impossível alguém exercer bem qualquer actividade. O facto de haver jogado futebol (infante no Vasco em 1964/65) e de continuar batendo "pelada" até hoje, embora com o joelho "bichado", ajudou muito a interpretar os lances; compreender que o futebol é um desporto de contacto e que nem todo choque é faltoso. Ademais, perceber a "malandragem" dos jogadores. Como era o aprimoramento na sua época e como é hoje?
R: Dei muita sorte. Logo no começo de minha carreira - 1973 - fiz um curso com Ken Astor, ex-presidente da Comissão de Árbitros da FIFA, o maior instrutor que conheci, ao lado de Aulio Nazareno. Depois, em 1975, fiz curso com José Maria Codesal, que também era óptimo instrutor da FIFA. Com esses cursos formei toda minha base. A partir daí fiz outros cursos promovidos pela CBD-Confederação Brasileiras dos Desportos, atual CBF-Confederação Brasileira de Futebol. A arbitragem era muito valorizada e os dirigentes se preocupavam muito. Quanto aos treinos actuais, hoje estamos no caminho certo, embora após um longo jejum de 8 a 10 anos, porquanto havia a infeliz concepção de que quem detém saber, detém poder. Tudo recomeçou a partir da recomendação Dr. Ricardo Teixeira no sentido de modernizar a arbitragem. Edson Rezende deu o pontapé inicial a partir de 2005 e Sérgio Corrêa deu continuidade a uma sequência grande de cursos e treinamento para todos os árbitros do Brasil, inclusive para formação de instrutores e observadores. As orientações envolvem as áreas técnica, física e mental, sem descuidar da área social – os quatro pilares da arbitragem. O resultado de tudo é que a cara da arbitragem brasileira mudou. Hoje ela tem um perfil. Erros há, mas isso faz parte da falibilidade humana e da dificuldade da profissão. Não vamos parar por aqui. Sabemos que o único caminho é trabalhar, treinar e treinar. Porquê a parte física é tão exigida hoje. Quanto corria um árbitro na década de 70 e nas demais? R: A velocidade com que o futebol é jogado hoje o exige. Mas os árbitros responsáveis sempre tiveram bom condicionamento físico, sobretudo para não cansar mentalmente, que é o maior problema. Corria-se cerca de 6 a 7 Km. Hoje, até 12 Km. É preferível ter um árbitro como o Gaciba, melhor do Brasil várias vezes, com problemas físicos, ou corredores que não apitam bem?
R: Precisamos das duas qualidades. Bons árbitros e com boa condição física. Se um árbitro sabidamente reprovado em teste físico deixar de ver um lance porque não o acompanhou de perto, o dirigente que o designou estará "morto", porque terá agido sem responsabilidade. Mas o problema não é a "morte" do dirigente, sim o prejuízo consciente dado ao futebol. Inconcebível! O que acha da exigência da mulher fazer o tempo masculino?
R: Correcta. O mundo clama por igualdade. Como posso exigir que um árbitro corra 4 Km em determinado tempo, porque o futebol de homens o exige, e minimizar a exigência para as mulheres. Essa seria uma discriminação que as mulheres fortes não desejam. O resultado seria o mesmo que a designação de um árbitro despreparado.

A formação de árbitros nos dias actuais está adequada?
R: Não, muito aquém do ideal. A CBF recebe muitos árbitros sem base, por isso tem que preparar alguns deles em muitos pontos. Temos que mudar esse quadro. Por isso estamos fazendo algumas exigências para ingresso na RENAF-Relação Nacional dos Árbitros de Futebol e orientando as Federações quando à grade curricular adequada. A questão não se resolverá facilmente, pois ademais há dificuldade de instrutores bem qualificados para todo o Brasil.

Existem instrutores para todos os estados?
R: Já fizemos 2 cursos para formação de instrutores e observadores estaduais e continuamos a orientá-los, mas muitos não têm domínio da matéria, que é muito complexa. Só o tempo, o estudo continuado e a troca de informações possibilita saber bem, sem saber tudo, todavia. As regras de futebol são um caminho sem fim. A cada dia um facto novo, uma nova visão.

Mesclar árbitros de um estado com outros, ajuda a melhorar a qualidade?
R: Ajuda a dar unidade social e profissional ao grupo. Possibilita a troca de informações acima referida. Vejo com bons olhos esse sistema, mas para usá-lo ocasionalmente, pois os árbitros que trabalham juntos têm mais facilidade para se entenderem. O trabalho em equipa é fundamental.

Quais os caminhos para melhorar a arbitragem.
R: Seleccionar bem; formar bem; qualificar bem e continuar estudando e treinando.

Na sua opinião qual o melhor instrutor de árbitros da actualidade?
R: Aqui no Brasil, temos alguns muito bons, embora com estilos distintos mas que se completam: uns são mais directos; outros buscam o porquê das coisas; outros se preocupam com os aspectos plásticos, que são importantes e fazem parte da função; outros com o imediatismo das decisões; outros querem decisões mais pensadas. Todos são necessários e ajudam a aperfeiçoar o árbitro natural, pois o árbitro forjado, sem ter tendência só faz o óbvio e, portanto, não enriquece o futebol. É como jogador de laboratório: não consegue fazer a bola dar curva. Só faz golo fácil.

Qual o estado melhor forma seus árbitros?
R: Não um, mas três: São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul.

Se você fosse o responsável em mudar a regra do jogo, o que mudaria?
R: Ah, se eu pudesse! Primeiramente, colocaria a tecnologia para lances de FACTO, ou seja, que não exigem interpretação. Isso inicialmente, pois lances de interpretação que ferem a ética e o senso de justiça também deveriam entrar no contexto, tão pronto a cultura do futebol absorvesse a iniciativa. A agressão de um jogador holandês a um espanhol, na final do Mundial de 2010, é uma espécie de lance que não pode ficar a critério exclusivo da visão do árbitro. Tanto pela dificuldade visual, como por ser possível o árbitro não ter coragem e, até, estar comprometido. Tenho um projecto que está sendo difundido, mas que já é do conhecimento de quem vive a arbitragem. Ao contrário do que muitos pensam, o jogo não precisaria ser interrompido para consultas e ganharia mais dinâmica. O mais importante de tudo, todavia, é que os resultados das partidas têm que ser sempre legítimos. Erram, e erram feio, os que dizem que o futebol precisa de erro para ser vibrante. Se assim fosse os jogos sem erro seriam sem graça! Isso nega a inteligência e natural tendência do homem de evoluir, aperfeiçoar-se.

Ademais, daria uma redacção mais clara, mais directa às regras, que, hoje, além de exigirem um esforço intelectual extraordinário para compreendê-la, contém muitos pontos contraditórios. Um deles é o impedimento (fora de jogo) por ganhar vantagem, pois o lance que possibilita marcação do impedimento destoa completamente da filosofia da regra: a bola não chega ao jogador que estava em posição de impedimento em razão de acção de um companheiro, muito menos no instante que este toca na bola, o que fere de morte o princípio da regra: momento do passe e a bola vir de um companheiro.

Profissionalizar ou não a arbitragem?
R: A arbitragem já é profissional, pois sem dedicação e responsabilidade não dá. Se essa profissionalização, todavia, disser respeito ao viver com o dinheiro de arbitragem, sou contra, radicalmente contra, pois isso criaria dependência do árbitro. O certo, porém, é que, ainda que se pretendesse, não haveria recursos financeiros para tanto. Como a CBF poderia remunerar 450 árbitros; a FIFA mais de 2.000, as federações seus quadros que oscilam entre 100 e 120 árbitros?

Melhor árbitro do passado e actual?
R: Citar um só não é possível: Arnaldo Cezar Coelho, José Roberto Wright, Armando Marques, Romualdo Arpi Filho e José Favile Neto, independentemente da ordem. Minha função me impede de citar um da actualidade. Temos óptimos árbitros, realmente muito bons, corajosos, que é uma qualidade indispensável, e bem formados.

Melhor assistente do passado e atual?
R: Do passado é difícil, pois éramos "bandeirinhas" e árbitros ao mesmo tempo. Da actualidade, a mesma razão que me impediu de dar a resposta relativa aos árbitros serve para os assistentes. O certo é que, por igual, temos óptimos.

NOTA: O meu bom amigo Manoel Serapião Filho, que nasceu em 25 de Julho de 1947, é Juiz no Tribunal de Trabalho em Salvador (Bahia), foi internacional de 1990 a 1993 e actuou, como Árbitro, no II Mundial de Futsal organizado pela FIFA, em 1992 (Hong-Kong) e participou nos seguintes 5 jogos:
PRIMEIRA FASE
16.11.1992 – Holanda-Irão 2-1 (2-0).
20.11.1992 – Hong Kong-Nigéria 4-1 (0-1).
21.11.1992 – China-USA 1-7 (0-4).
23.11.1992 – Irão-Polónia 2-0 (0-0).
SEGUNDA FASE
24.11.1992 – Polónia-Bélgica 1-4 (0-3).

2 comentários:

Anónimo disse...

Manoel serapião me chamo gildo de sousa serapião será q não e meu parente abraços velho....

Alberto Medeiros disse...

Lembro muito do manuel,ele esteve aqui em sc durante o jogo pelo estadual entre Criciuma e Blumenau. Quando a bola era chutada para torcida ele preferia esta mesma como se fosse uma só bola por jogo. o supervisor do Criciuma me disse: O JUIZ NAO DEIXOU! O JUIZ QUERIA AQUELA! É O JUIZ QUE MANDA NO JOGO! Antes desse jogo eu seria capaz de jurar que conheci no jogo CRICIUMA X VASCO na qual teve um cartão amarelo relampago.
Eu também preferi ser juiz, mas infelizmente ouve preconceito por minha deficiencia auditiva.

UM GRANDE ABRAÇAO PARA MANUEL